Terça-feira, Novembro 10, 2009

Será?


Sobre o caso da estudante da Uniban, a do vestido curto que foi quase linchada, saiu da universidade escoltada, e por fim foi expulsa. Aliás, estão dizendo que o reitor revogou a expulsão, mas eu não tive ainda tempo de pesquisar o assunto.

Mas minha pergunta é: será que morar aqui no exterior nos "liberta" de alguns falsos moralismos? Porque o que notei é que os expatriados todos ficaram boquiabertos com o episódio, especialmente a expulsão da garota. Já quando converso com brasileiros lá no Brasil, a visão deles é bem diferente, muitos atribuem culpa à garota. Vejam alguns comentários:

Um primo meu, estudante da tal faculdade, injuriado com o caso: "a gente não tava gritando por causa do vestido curto, a gente tava gritando porque além do vestido curto, a menina tava sem calciiiiinha! ( pra mim, acho que foi história inventada na hora e que "pegou" ). Se fosse só o vestido curto, não ía gerar tanta confusão. Agora diga aí, a menina precisa ir pra faculdade naqueles trajes?".

Um fornecedor brasileiros: olha, foi um absurdo mesmo a reação do povo todo, mas a menina também "forçou" indo pra faculdade vestida daquele jeito.

Senhora da minha família: a menina era gorda pra usar aquela roupa, se fosse uma magrinha seria menos "escandaloso".

Um amigo via "Skype": vocês vão aí pro exterior e ficam todos "pra frentex" e se aí é comum cada um sair com a roupa que quer, aqui o povo ainda tem padrões mais familiares( !!! ). Tudo bem que o negócio degringolou, mas pelo menos uma advertência ou suspensão ela merecia.

O que eu acho um absurdo é na terra da Mulher Melancia e do Mc Créu o povo ter uma reação dessas! Essas mulheres frutas são beeeem cheínhas, tem umas coxas imensas, não tem rostos lá muito atraentes, eu achei que finalmente o Brasil tava mudando, que estava sendo mais democrático com o padrão de magreza, que o padrão Globeleza tinha caído em desuso, mas pelo jeito me enganei. Pelo jeito a classe mais humilde gosta das frutas coxudas do Mc Créu, mas a classe média e alta, que tem acesso à faculdade, gosta é mesmo de aspirantes à modelo da Ford Models.

Ou tô errada?




Sábado, Novembro 07, 2009

Que vergonha!

Gente, tô besta...

A aluna do vestido curto foi expulsa da faculdade!

Como diz um comentário deixado na matéria do Estadão: é Uniban ou Unitaliban?

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Uia!


Hoje fui gentilmente informada pela amiga Holandesa que o Zaire não existe desde 1997! Uia!

Pior é que a frase "aqui no interior do Zaire", de autoria da Pacamanca e que eu adoro usar, não fica tão sonora e agradável quanto "aqui no interior do Congo".

Ah, não disse né, o Zaire virou Congo.

Putz, pior é que todos os indícios dessa importante mudança estavam na minha cara, no novo jogo da Carmen Sandiego você não encontra mais uma máscara antiga do Zaire, é máscara antiga do Congo! E até Hollywood soube antes de mim, o George of the Jungle tá no Congo, não no Zaire!

Pô povo, 400 visitas por dia, eu falando Zaire há anos, e ninguém aqui pra me puxar a orelha?

Quem é que já sabia ( bota o dedo aqui )?

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Comprei meu tchutchuco

Esqueci de contar, mas na sexta passada comprei meu ereader da Sony.



Estou amando, meus arquivos "generosamente doados por internautas mais financeiramente afortunados" estão funcionando fantásticamente. Tenho nesse momento mais de 50 e-books esperando para serem lidos. Achei séries inteiras que eu queria ler ou que já li e quero reler. Achei a Outlander inteira, o Brotherhood of the Black Dagger, o Sookie Stackhouse ( já li, mas quero reler ), o Vampire Diaries, outros mais pop como o Time traveller's wife, o Lost Symbol ( que eu empaquei na metade ) e alguns outros de Saramago, como o Blindness.

Estou agora baixando os clássicos em inglês e domínio público em português. Como ainda tá tudo muito no começo, achar os livros "free" ( se é que vocês me entendem ) ainda requer um pouco de fuçação internética, mas a gente acaba achando. Dentro em pouco tenho certeza que vai ser que nem MP3.

Vou acabar comprando alguns títulos que quero mas não acho "doado", como é o caso do Brave New World. Mas tenho tanto livro bom esperando pra ler que dá um pouco daquele pânico da televisãozinha do avião, sabe quando você vê vários filmes legais no cardápio mas só tem 9 horas pra assistir? Então, começo um livro, fico ansiosa, pulo pro outro... Agora aquietei o faixo e estou lendo um só bonitinha, mas nas férias meu tchutchuco vai ferver.

Ele é super "readable", a tela parece uma folha de papel reciclado, é leve, vira a página fácil, dá pra tomar notas, pra marcar partes do texto, e tem um dicionário embutido que é só você dar um tapinha na palavra e ele já mostra a definição. No dia que inventarem o dicionário em holandês minha leitura em holandês vai ficar mais fácil.

Mas então, ultra recomendado, principalmente pra quem gosta de ler bastante. Tem os que irão dizer que curtem mais papel ( tem gente que nunca pegou um e-book na mão e diz que prefere o livro ), os que gostam de olhar pro livro na prateleira, os que gostam de emprestar o livro ( é só mandar o arquivo pro amigo via e-mail ), mas poder levar 50 ou 350 livros com você nas suas férias, é fantástico.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Tafú


A empresa, em parceria com o governo Holandês e o Belga está oferecendo e-learning, a ser seguido no tal dia em que (quase) todos não trabalhamos. Eu estou seguindo o curso "holandês para estrangeiros".

Ontem segui uma lição interessantíssima, sobre o termo "asociaal". Eu já tinha ouvido o termo "anti-social" antes, em português e em inglês, empregado na situação de uma pessoa que não gosta de contato social. Asociaal aqui na Holanda tem um significado diferente, é a pessoa que age sem considerar a sociedade. É o cara que joga lixo na rua, que fala alto no celular quando está no trem, que fura fila, etc etc e etc.

Uma das coisas interessantes da reportagem é que quando "flagrado" o "asociaal" na maioria das vezes diz que "faz porque todo mundo faz", ou que o outro faz pior, ou coloca a culpa de alguma forma na "instituição" ( governo, diretoria da empresa, donos de estabelecimentos ). Muitas das opiniões são bem interessantes, e no fim da lição temos que dar nossa opinião por escrito ( meu holandês escrito é péssimo ).

Começou com o dono do cachorro. O flagra dele foi deixar o cachorro fazer o cocô e não recolher. Abordado pela reportagem ele diz: e os donos de gato? Meu jardim cheira a cocô e xixi de gato, se eu quiser mantê-los distantes tenho que comprar um produto caríssimo e o dono não vai pagar, vai? Nem pagar, nem ir lá desenterrar o cocô pro meu jardim não feder.

Eu não acho que usar esse argumento pra deixar o cocô do cachorro na rua seja válido, mas o pensamento está certo. Eu não acho certo criar gato "solto". A maioria das pessoas acha que gato tem que ser criado na rua, que é impossível mantê-lo em casa, mas posso dizer de cadeira que isso é comodismo, afinal é mais fácil e barato deixar o seu gato ir cocozar o jardim do vizinho. Gatos nunca fazem cocô no seu próprio território. E vão dizer que eu digo isso porque meus gatos são de raça, são grandões, e são quietos, por isso que não pulam o muro, mas no meu quarteirão somos 4 casas, 3 tem gatos. Uma tem dois viralatinhas ( holandês pêlo curto pros politicamente corretos ) que no máximo brincam no quintal. Outra tem um British short hair ( o gato da Sheba ) que também só fica no quintal. Nenhum pula muro. É trabalhoso no começo ensinar, e vira e mexe um mais fujão escapa ( o meu fujão é o Plato ), isso sem falar na grana que vai em areia sanitária, e ter que limpar a areia sanitária todos os dias; mas meus gatos ( e os dos vizinhos ) são animais felizes e saudáveis, sem incomodar a vizinhança. E antes de dizer: vai adiantar eu prender meus gatos se o vizinho não prende o dele?, pense que VOCÊ é responsável por fazer sua parte, sem desculpinha furada.

E a reportagem conversa com vários outros "asociaal", um fulaninho tocando música com celular no trem ( que ódio! ), um outro que estacionava o carro pequeno, tipo mini, num lugar proibido ( a desculpa: cabe! ), ditinho que joga bituca de cigarro no chão ( o cinzeiro tá longe - 10 mtrs ), vários exemplos, mas o campeão de reclamação é mesmo vizinho barulhento.

Olha, nesse sentido eu sou sortudésima. Na casa antiga os vizinhos eram praticamente uma sombra. Agora, minha casa é "vrijstanding", ou seja, não é geminada, e não dividir parede já é uma grande vantagem, mas nunca ouço ou vejo meus vizinhos ( o da frente, que tinha 4 carros, se mudou e a casa está vazia ).

Eu queria adicionar uns itens nessa pesquisa, e pelo menos dois involvem pais. Pais que levam carrinhos intergaláticos ( adoro a invenção da Paca! ) pro supermercado no fim de semana, quando o supermercado disponibiliza 3 tipos diferentes de acomodação pra creonça ( carrinho com bebê conforto, carrinho que tem um mini-fusquinha acoplado pra creonça ir dentro e a tradicional cadeirinha do carrinho ). E, vide meu post passado, pais que levam criança "brincar" no mercado.

Podem me chamar de chata ( a véia do 53 do Chaves? ), mas num país lotado com esse aqui, 2 ou 3 "asociaal" ao seu redor e você tafú.


Domingo, Novembro 01, 2009

Cenas de um domingo bucólico no sul da Holanda



Creonça: Mama, me leva passear?

Mama: Tá chovendo menino, vai brincar.

Creonça: Já brinquei, tô entediado, quero passear.

Mama: Vá pedir pro seu pai inventar qualquer coisa com você.

Creonça: Já pedi, ele falou que tá cansando, que amanhã tem que trabalhar, que é pra você brincar comigo.

Mama: Vai jogar seu Play Station 2.

Creonça: Odeio o Play Station 2, todo mundo já tem o 3 ou o Wii. Me compra o PS3?

Mama: É caro.

Creonça: Me leva no Efteling.

Mama: Tá chovendo, é ao ar livre, e é caro.

Creonça: Me leva no Madurodam?

Mama: É ao ar livre e é caro.

Creonça: Me leva no zoo?

Mama: É ao ar livre e é caro.

Creonça: Vamos naquele zoo de macacos!

Mama: É ao ar livre e é caro.

Creonça: Vamos dar esmolas pros pedintes da estação!

Mama: É ao ar livre, tem um pedinte só ( o Hans Toilet Papier, ele tem sempre um rolo de papel higiênico pendurado no cinto ) e é caro.

Creonça: Mama, se aqui só faz sol 3 meses por ano, porque é que tudo é ao ar livre?

Mama: Porque somos burros e construir teto é caro.

Creonça: Assim não dá, eu sou criança, quero gastar minha energia, quero correr, quero pular, quero mexer nas coisas, quero gritar e falar alto, quero tirar o sarro das velhinhas de rolator. Pode ir pensando num lugar pra me levar senão eu vou fazer do seu domingo um inferno!

Mama: Acabei de ter uma idéia. É coberto, tem ar condicionado, e você vai poder fazer tudo isso que você quer.

Creonça: Onde mama, onde?

Mama: No Albert Heijn! O supermercado agora abre de domingo, você pode se divertir, fazer toda a zona que quer, sem pagar um tostão!!!!

E uma coitada duma imigrante sul americana, achando que ía encontrar o mercado vazio, foi de listinha e cardápio em punho, achando que ía ter paz e sossego pra fazer as compras da semana e não precisar voltar todos os dias pra comprar isso e aquilo. Ela acabou comprando a comida substituta do gato, uma caixinha de morangos pra uma caipirinha ( depois dessa ela mais que merece, ela precisa! ), um pacote de chá mate sul americano com ananás ( abacaxi ) e um tetrapack de suco de cajá ( sim, aqui vende suco de laranja com cajá! ).

No caixa, a fila que sempre tem 2 ou 3 pessoas tinha 12.

E chovia.

Sábado, Outubro 31, 2009

Dotoso

Ele participou de uma temporada do Lost, e agora é o vampiro malvado Damon da série The Vampire Diaries.

É lindo, lindo e lindo. Lembra bem o Tom Welling ( Clark Kent de Smallville ).

Olhar pode, né não?

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Sétima-feira

Foi uma semana tão estressante, estou tão cansada, e essa sexta-feira que não chegava!

Eu estou numa irritação tão profunda, que até pepininhos pequetitos me tiram do sério. É uma luta inglória ficar se controlando, porque o racional te diz que é uma fase e que você está "overreacting", mas o irracional quer mais é estrangular um. Meu estresse tem um nome: fornecedor bocarra. Ainda não me livrei dele.

Mas hoje chegarei em casa e baixarei meu Grey's Anatomy, o Private Practice, o Flashforward e serei feliz, bem feliz. O episódio passado do Grey's foi péssimo, o primeiro ruim de 6 anos de série.

Nesse findi estou também programando alguns cyber-suicídios: facebook e minha fazendinha que cansou; o Twitter - que é pra quem se acha; e possivelmente o Orkut, que eu mantenho só pra saber o aniversário das amigas ( melhor colocar na agenda digital, certo? ). Queria matar também o LinkedIn, mas holandês tem mania daquilo, profissionalmente é ostracismo demais não tê-lo.

E vamo que vamo, findi tá aí ( deus é mais ), vou fazer comida indiana que aprendi com o Apoo, amigo do Bart, e vou dormir mooooito, que tá frio e eu não tô pra ficar pela rua congelando as porpança.

E se meu estômago permitir, farei glu-wine ( não sei como se escreve, é aquele quentão alemão ), que sobrou do ano passado. Ou fondue. Olha a banha que balança!

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Sou pirata da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau!

Há alguns dias escrevi aqui sobre o Kindle, o novo e-reader da Amazon.com. Como eu vivo perto do Zaire, onde mora certa blogueira ilustre, o Kindle aqui não rola: custa caro encomendar, não tem assistência, comprar livro só do site americano e pagando extra, o ó. Mas nem tudo está perdido, pois há outras opções de marcas, e eu estou pesquisando a qualidade, e custo/benefício.

Eis que entra em jogo a questão polêmica: piratear ou não piratear?

A idéia de comprar um e-reader veio da incompetência da Selexyz ( livraria ) de Eindhoven. No estoque deles dizia que tinha um exemplar do Sookie Stackhouse 1, mas ao vivo, alguém gateou o livro e ele existia só na contabilidade da loja. Sábado chuvoso, marido gripado, tédio total, eu TINHA que ter aquele livro. Vim pra casa depois de passar por outras várias livrarias ( Eindhoven é meio pobre em livrarias ) de mãos abanando. Eis que fuçando na net achei o torrent do livro. Ao baixá-lo vi que veio não só o primeiro livro, mas a coleção inteira! Ler no lap foi um saco, mas de graça, rapidinho, necas de estoque esgotado...

Daí meu interesse pelo "aparato" leitor de livros. Pesquisando por outros títulos online, me deparo sempre com a americanada metendo o pau em quem baixa o livro "free", dizendo que quem o faz está roubando do autor. Acho engraçado, e quem baixa MP3 não está roubando do cantor? E quem baixa seriado, filme, não está roubando do ator/diretor? É tudo roubo, e me digam aí, quem é que NUNCA baixou um MP3?

Há a falsa moralidade de que quem pirateia livros está lesando o autor porque autor não recebe tanto quanto um cantor. Está aí a J.K. Rowling com seus 800 milhões de dólares na conta bancária que não nos deixa mentir.

Mas vou dizer o que me irrita profundamente, um arquivo eletrônico, no caso o livro, custar 10 euros, muitas vezes o mesmo preço do livro em papel. Você não usa papel, tinta, processo de manufatura algum, não paga transporte, e cobra o mesmo! Isso sem falar nos impostos. Imposto sobre livro nos EUA é 6%, imposto sobre livro eletrônico é 17%, como pode?

Vou confessar, quando eu gosto muito de uma música, eu baixo. Não sou grande fã de música, não consigo fazer nada, nem conversar direito, com música de fundo. Tenho cerca de umas 100 MP3, quando muito. Eu baixo minhas séries, porque aqui nos arredores do Zaire não televisionam 10% delas, e quando o fazem chega a ter anos de diferença. E vou baixar livros, se comprar o e-reader, claro.

Agora sendo sincera, fora os motivos acima, vai o principal: baixo porque está disponível, fácil e de graça. Pronto.

E você, dá uma de capitão gancho ou compra tudo bonitinho?

PS.: Ah, e assunto nada a ver, mas acabei de ler no Te dou um dado? e não consigo parar de rir. Vou já pra cama roncar com os anjos, rindo.

"E o campeão absoluto:

Maitê? filha? és tu? será que és a minha filha? há uns anos fui ao cu a um papagaio e fiquei com merda na ponta da pila, limpei a merda e deitei na sanita e nunca mais a vi, … até agora que te vi novamente, voltei a ver o pedaço de merda há muito perdido. volta minha filha. Agora mais a sério, nem me vou dignar a comentar o que vi desta insignificante. Falta de respeito, falta de cultura de uma mente fraca que não merece o ar que respira. volta cá mais vezes para venderes livros.

Falta só descobrir o que é sanita. O Google diz que é vaso sanitário, mas se os portugueses deitam na sanita eles tem problemas maiores que Maitê Proença."

Deitar na sanita... ha ha ha...

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Adriana está no tronco

Laiá laiá... Já sabem, né? Ando sem tempo nem pra almoçar, mas faltam 5 semanas pras minhas férias de verão no inverno...

Super interessante a discussão o post anterior. Os comentários fazem a gente pensar, não é? E é como dizem: cada um é cada um, vejam só a Marina e a Eliecy, com experiências tão opostas.

Mas esse era o meu ponto, que quem passe por aqui ( e o post ficará ali no arquivo ) se informe mais, que veja os dois lados da moeda. É como uma vez me disse uma brasileira morando aqui, a gente até lê as experiências mais negativas, mas a gente sempre acha que conosco será diferente. Bom, o que eu digo é: tem que ter otimismo, senão não se aguenta o tranco, mas um otimismo inteligente, né meu povo, sabendo das dificuldades e do caminho à frente.

Outro ponto interessante foi o deixado pela leitora Renata, que diz estar melhor aqui. Acho interessante que normalmente quem tinha dificuldades financeiras no Brasil aqui se adapte mais fácil, não pense em voltar, e já aqueles que tinham uma situação financeira mais estável fiquem mais com o pé atrás. Eu já tinha 9 anos de experiência numa multinacional no Brasil, tinha passado já daquela fase de incertezas de começo de carreira, e vejam bem, entrar e me manter na GM não foi fácil, pelo contrário, mas eu desfrutava lá de uma situação muito muito boa. Sempre que eu volto ao Brasil e vejo meu irmão com uma casa fantástica dentro de um condomínio lindo, com carrão zerinho na porta, penso que eu podia estar na mesma situação. Mas o ponto chave não é só estar na situação financeira confortável, é além de todo o conforto material, ter toda a família por perto. Os amigos. É ter sempre a casa cheia, a família e todos nossos amigos de infância praquele churrasquinho na idícula, pra farra na piscina. A amiga de Rotterdam quer voltar pra Salvador, vê os amigos se dando super bem, ela se daria ainda melhor, não conheço ninguém mais inteligente e capaz que ela. E olha, se eu fosse soteropolitana e viesse parar na feiosa Rotterdam eu ía sonhar com a volta todos os dias, principalmente com uma família animadésima como a dela.

E já outras horas penso que aqui não tenho o "glam" mas também jamais passarei necessidade. Outro dia eu estava ouvindo minha mãe falar, ela tem artrite reumatóide e o tratamento é carésimo, mais de mil reais por mês. Mesmo tendo uma condição razoável, seria difícil pra ela bancar esse rombo no orçamento até o fim da vida. Como minha cunhada é assistente social e conhece os "trâmites burocráticos" do SUS, ajudou minha mãe com a papelada e ela está recebendo 80% dos remédios pelo SUS, mas gente, é uma via sacra inenarrável, que uma pessoa doente, sem ajuda da família, não consegue chegar ao fim. A cada 3 meses ela tem que preencher a papelada de novo, pegar laudo médico, pegar fila lá nos cafundós... Aqui na Holanda, fui à médica com uma alergia na pele, saí do consultório já com a receita encomendada na farmácia ao lado, chegando na farmácia o remédio estava esperando por mim, assinei o papel que vai pro convênio, não desembolsei 1 euro-tostão. Não tenho preocupações com a minha velhice, e isso, ao lado do fator segurança, é o que me segura aqui.

Já fui muito revoltada com essa terra, mas fiz minhas pazes com ela. Estou bem aqui, melhor que muitos, melhor até que muitos holandeses. Sofro a falta da família, peno no inverno com a depressão, acho o idioma a coisa mais horripilante que existe nessa galáxia. Mas... tenho minha casinha legal, ando na rua sem olhar pros lados, estaciono meu carro em qualquer lugar, sempre sobra grana pra viajar muito e bem, tenho segurança no emprego - e um emprego que eu gosto muito... Não vou mais me queixar não. Ou melhor, vou sim, mas passa...

Só que eu jamais vou esquecer como o começo foi difícil, eu jamais vou esquecer como eu me senti um cocô a cada não que eu levei na cara, jamais vou esquecer de quantas vezes eu me perguntei "será que um dia voltarei a exercer a profissão que eu tanto amo?". Deixo aqui claro que eu não sei como foi que eu aguentei. Eu gostaria de contar pra vocês clichezões do tipo "encontrei uma força que nem eu sabia que tinha", "sou um ser humano melhor agora", ou então o fatídico "sou uma vencedora". Mas a verdade é que voltar pra trás não era uma opção. Teria sido mais difícil do que enfrentar tudo o que eu enfrentei aqui. Sou uma vencedora? Eu me acho é uma sobrevivente. E já tá bom demais.

E bom demais também é essa época das tortas de maçã, uma melhor que a outra. Nem a Chanele da Paca dá conta de derreter as banhas que se acumularão se eu não me controlar.